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CRIANÇAS: NÓS AS COMPREENDEMOS?

por Jan Hunt, Psicóloga Diretora do "The Natural Child Project"

Há pouco tempo eu estive lendo uma revista popular enquanto aguardava em uma sala de espera. Na seção de direitos das crianças li uma história sobre os segredos de criação de filhos que a atual primeira-dama dos Estados Unidos, Hillary Clinton, ouviu de uma das antecessoras, Jacqueline Kennedy Onassis. Eu já deveria imaginar que, assim como os senadores da audiência de Clarence Thomas não compreendiam as mulheres, essas primeiras-damas não compreendem crianças.

Eis uma das sugestões que Jackie deu a Hillary: se os filhos de Kennedy se atrasassem para a escola, o motorista ia embora sem eles - isso lhes ensinaria responsabilidade. Esse conselho notável já diz tudo. Acredita-se que as crianças funcionem em um universo independente, com princípios de comportamento diferentes - um lugar onde a adversidade gera maturidade, o desdém arrogante pelos sentimentos da criança gera amor filial e a frustração gera responsabilidade. É claro que os adultos não necessitam de lições tão ásperas. É de se pensar com receio como Hillary reagiria se ouvisse do presidente uma demonstração de sabedoria como essa: "Hillary, essa é a segunda vez que você chega atrasada a um compromisso presidencial. Da próxima vez vamos começar o jantar sem você!" É claro que isso tornaria a esposa mais devotada e responsável. Certo?

Ah, você diria, mas isso não funciona assim? Na verdade, ela reagiria de outro modo, talvez o contrário disso? (As crianças fariam o mesmo). Ela se sentiria insultada, humilhada e envergonhada, teria fantasias de faltar aos três próximos jantares presidenciais e talvez mesmo de se vingar da pessoa desrespeitosa que a insultou? ( Uma criança faria o mesmo). Ela ficaria irritada demais para aprender qualquer coisa boa? Ela preferiria ter ouvido algo bem diferente, como "Eu percebi que você está se atrasando para esses compromissos, posso ajudá-la de alguma forma?" ou, melhor ainda: "Vamos conversar sobre o que você está sentindo e ver se podemos ajeitar as coisas de outro modo". (Uma criança também preferiria assim). Ah, mas eu já ia me esquecendo, ela é adulta, funciona com princípios adultos de conduta e portanto tem o direito de se sentir assim. E a gente fica pensando: exatamente em que dia da vida a gente se torna adulto e de repente ganha o direito a ser tratado com compreensão, respeito e compaixão?

Em outro artigo eu escrevi sobre a interferência do castigo sobre a oportunidade de aprendizado. Perder a condução para a escola diz respeito exatamente a esse tipo de oportunidade. Os pais poderiam ter aproveitado a ocasião para discutir com os filhos alguns assuntos realmente importantes, desde os mais práticos (como organizar o tempo antes de um compromisso importante) até os mais profundos (como reconhecer a atitude passivo-agressiva de evitar um compromisso). Um mundo de oportunidades se perde para sempre quando tomamos um atalho e lidamos superficialmente com os problemas que surgem. Se a responsabilidade for ensinada com brutalidade, como devem ser ensinados a paciência, a tolerância, o perdão e a compreensão?

Alguém poderia argumentar que as adversidades ensinam responsabilidade e trazem maturidade. Mas até o ponto em que isso possa ser verdadeiro, a vida já fornece bastante experiências adversas (os filhos de Kennedy são um exemplo pungente) sem que acrescentemos obstáculos artificiais para nossos filhos superarem. Embora tudo na vida seja uma oportunidade de aprendizado, enfrenta melhor a adversidade quem adquiriu auto-estima, auto-aceitação e otimismo em experiências prévias de incentivo e sucesso. Como escreve o educador John Holt, nosso estoque de experiências bem-sucedidas é como "dinheiro em caixa" - a melhor preparação para tempos difíceis. Os filhos de Kennedy sobreviveram tão bem àquele dia de novembro de 1963 graças a todas as experiências felizes, construtivas e encorajadoras que tiveram antes daquela data e não por terem sido "endurecidos" por castigos. Como qualquer criança sabe, mas muitos adultos já esqueceram, "amor duro" é uma contradição.

Os senadores do caso Clarence Thomas não compreendem que mulheres são pessoas que merecem tratamento respeitoso. Com nossas atitudes em relação às crianças, ou compreendemos as crianças como pessoas com sentimentos próprios, que merecem ser tratadas com dignidade e respeito, ou não as compreendemos e continuamos a seguir o que a sociedade - nossos vizinhos, supostos especialistas e primeiras-damas - nos dizem sobre nossos filhos e como criá-los. Ficaríamos melhor seguindo a Regra de Ouro. Nossos filhos também!

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