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INTERVIR EM FAVOR DE UMA CRIANÇA EM LUGAR PÚBLICO - 2a parte: COMO AGIR?

por Jan Hunt, Psicóloga diretora do "The Natural Child Project"

Ela é um encanto, com seus cachinhos de cabelos castanhos e grandes olhos azuis. Tem uns três anos e acaba de descobrir para que servem os bolsos. Ela pega uma coisinha da prateleira e traz para perto de seu bolso. Observa o objeto por alguns instantes, depois o derruba no bolso. 'Plect'. Ela dá uma risadinha de satisfação. Põe a mão no bolso para experimentar de novo. Mas essa cena acontece dentro de uma loja e o objeto - de vinte centavos - não foi pago.

Seu pai, parado a certa distância, observa a cena com irritação crescente. Furioso, ele avança para a menininha, arrebata o objeto de sua mão e grita: "Se você roubar alguma coisa novamente, vou quebrar todos os seus dedos!". O pavor da ameaça acaba com a alegria da criança, que permanece encolhida, imóvel, assustada.

Infelizmente a cena que acabo de descrever não é ficção. Aconteceu em uma grande loja de departamentos de uma cidade canadense. Embora esse exemplo pareça ser extremo, não é um caso isolado. A agressão física e emocional faz parte do dia-a-dia de muitas crianças em nosso meio. Não é preciso passar muito tempo em um lugar público para se ouvir ameaças, ordens impacientes, declarações de desconfiança e palavras irritadas dirigidas a uma criança, e observar adultos que não dão atenção ao choro dos filhos.

Quando os maus-tratos acontecem entre quatro paredes, só são perceptíveis se forem muito freqüentes ou intensos, ou se houver sinais de agressão física ou abuso sexual. Mas quando acontece em público, temos a oportunidade de interferir. Nesse caso, como podemos reagir de um modo que seja útil tanto para a criança quanto para o pai ou a mãe?

Como nós também não somos pais perfeitos, ajuda mais se pensarmos em como preferiríamos ser tratados se fôssemos vistos tratando nossos filhos de um modo pouco delicado. A partir desse ponto de vista, os seguintes princípios podem ser úteis quando nos defrontamos com essa situação em lugar público:

  1. Precisamos mostrar empatia pelos pais: "É realmente um desafio lidar com uma criança pequena que ainda não entende direito o que é uma loja".
  2. Depois podemos compartilhar alguma história acontecida conosco - ou com nossos filhos: "Eu lembro que quando tinha quatro anos meus pais me surpreenderam pegando um brinquedo, mas eu não tinha idéia do que fosse roubar".
  3. Depois podemos nos aproximar da criança: "Você deve estar assustada de ver seu pai tão bravo". E acrescentar: "Esse brinquedo é mesmo interessante. Vai ser duro ter que deixá-lo na loja".
  4. No fim, podemos dar uma sugestão: "Meu filho aceita bem fazer uma lista das coisas que deseja mas não podemos comprar no momento".

Ainda que seja difícil encontrar o melhor modo de agir quando se está envolvido na situação, o simples fato de defender a criança pode ter uma repercussão importante em sua vida, mesmo que a interferência deixe o pai ou a mãe bravos ou na defensiva. Muitos adultos em psicoterapia recordam nitidamente o dia em que um estranho interferiu em seu auxílio, e o quanto isso significou para eles - que alguém se importou e que o medo, a perplexidade e a raiva da criança foram compreendidos e aceitos.

Devemos pensar em reagir como se estivéssemos lidando com uma grande amiga nossa. Vamos imaginar que presenciamos uma situação de exceção, que só aconteceu porque a mãe estava passando por algum problema pessoal muito sério. Esse primeiro passo, de criar empatia com o adulto, vai aumentar nossas chances de sermos ouvidos e mostrar ao pai ou à mãe que acreditamos em suas boas intenções. Com essa abordagem temos mais chances de evitar criar uma reação de antagonismo em que o pai maltrate ainda mais a criança.

Mas mesmo que a reação dos pais não seja tão boa quanto esperávamos, isso não quer dizer que nossa mensagem não tenha sido ouvida. Talvez ele lembre disso em um momento mais tranqüilo e reconsidere o que não foi capaz de aceitar na hora.

É difícil interferir, principalmente em uma sociedade em que é tabu dar opinião sobre o modo como os outros pais tratam seus filhos. Por esse motivo muitos adultos observam que uma criança está sofrendo com o tratamento agressivo dos pais mas preferem passar direto sem se manifestar. A criança entende que ninguém se importa com seu sofrimento e os pais concluem que seu comportamento é louvável.

Embora o pai de nossa história pretendesse dar uma lição de moral válida para sua filha, seu modo de tratá-la só poderá, ironicamente, diminuir sua auto-estima e tornar mais real a possibilidade do furto. Como essa menininha poderia saber que suas palavras foram uma ameaça que ninguém em sã consciência teria coragem de levar a cabo? Ela não tem como saber e se ninguém acorrer em seu auxílio, jamais saberá.

Histórias de pacientes psiquiátricos mostram claramente a relação entre o grau de maus-tratos e punição sofridos na infância e o comportamento antisocial no futuro: os psicopatas de hoje foram as crianças maltratadas de ontem. Não podemos entrar numa máquina do tempo para ajudar as crianças do passado, mas podemos ajudar as crianças de hoje a se tornarem os adultos responsáveis de amanhã, capazes de tratar seus filhos com respeito e empatia. Podemos "testemunhar" publicamente em favor da criança. Podemos lhe mostrar que ela tem valor e que não merece ser maltratada. Se a comunidade não deixar claro que os maus-tratos às crianças são inaceitáveis, a agressão vai continuar passando de uma geração a outra. Se tivermos o cuidado de intervir demonstrando empatia também pelos pais, teremos cumprido a tarefa a que nos propusemos.

Ninguém machucou os dedinhos da menina, mas a idéia que ela tem do mundo jamais será a mesma. Quem sabe um dia alguém decida interferir e se pronunciar em seu favor - e fale de um modo que seu pai também seja capaz de entender.

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